Há momentos em que uma frase aparentemente informal revela muito mais sobre o ambiente político do que longos discursos.
Na quarta-feira (16), durante encontro com pastores evangélicos, o presidente Lula afirmou que já utilizou o “sangue de Cristo” para explicar o vermelho da bandeira do PT e relacionou sua barba à imagem de Jesus. No mesmo encontro, declarou que não faz comícios em igrejas porque considera a religião algo sagrado.
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É justamente aí que aparece a contradição.
Defender que púlpito e palanque não devem se misturar é uma coisa. Aproximar símbolos de um partido político de elementos centrais da fé cristã é outra — e inevitavelmente levanta questionamentos sobre onde termina a manifestação pessoal de fé e começa a comunicação política.
O contexto torna a declaração ainda mais relevante. Segundo pesquisa Quaest, em uma simulação de segundo turno entre eleitores evangélicos, Flávio Bolsonaro aparece com 51% e Lula com 28%. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de setembro.
Isso não permite afirmar que a fala tenha sido planejada exclusivamente para conquistar votos religiosos. Mas seria ingênuo analisar uma declaração dessa natureza, em ano eleitoral e diante de lideranças evangélicas, ignorando seu peso político.
E talvez esteja aí um dos problemas recorrentes da política brasileira: aquilo que é condenado no adversário frequentemente ganha outra interpretação quando praticado pelo próprio campo.
A fé não deveria precisar de legenda partidária.
Vale para Lula, vale para seus adversários e deveria valer para qualquer liderança política. Quando símbolos religiosos começam a servir para aproximar partidos de determinados grupos de eleitores, abre-se uma fronteira perigosa entre convicção pessoal e conveniência eleitoral.
O eleitor brasileiro já convive com polarização suficiente para também precisar escolher quem representa melhor Deus.
Presidentes, candidatos e partidos deveriam disputar votos apresentando propostas, resultados e projetos para o país.
A fé pertence ao cidadão. O voto também. E misturar os dois exige muito mais responsabilidade do que uma boa frase diante de uma plateia.